A representação de pessoas com deficiência na televisão está aumentando, mas de forma lenta. E, em um cenário de programação cada vez mais amplo, também está ficando cada vez mais difícil encontrá-la, e os telespectadores da comunidade de pessoas com deficiência têm dificuldade em se sentir reconhecidos.
Nos EUA, 26% da população adulta vive com alguma deficiência, e 1 bilhão de pessoas em todo o mundo fazem parte da comunidade de pessoas com deficiência. Porém, apesar de essa comunidade ter grande representatividade na população, ela continua sendo, em grande parte, invisível ou retratada de forma imprecisa nos conteúdos exibidos na tela.
Em setembro de 2022, havia um total de 923.229 títulos de programas de televisão disponíveis para o público, um aumento de 43% desde o terceiro trimestre de2019¹. E, embora o volume de conteúdo inclusivo para pessoas com deficiência tenha aumentado ao longo do tempo, o progresso é lento, especialmente quando comparado ao aumento na programação disponível em geral. A inclusão de pessoas com deficiência em conteúdos de vídeo atingiu seu pico em 2019, quando foram lançadas 518 produções com temas epersonagens relacionados à deficiência². Mas esse número é apenas uma gota no oceano quando se trata da produção total de conteúdo. Em dezembro de 2022, 7.556 títulos de vídeo incluíam atributos temáticos relacionados à deficiência, mas isso representa apenas 4,1% do total de 183.089 títulos com metadados descritivos lançados durante o mesmo período.
Com números de inclusão como esses, não é de se surpreender que 46% das pessoas com deficiência sintam que seu grupo de identidade está sub-representado na TV. Na verdade, as pessoas com deficiência têm 34% mais chances do que a população em geral de sentir que estão sub-representadas natela³.
E, entre os programas que de fato apresentam pessoas com deficiência, a participação na tela continua baixa e favorece desproporcionalmente a inclusão de pessoas com deficiências não aparentes em comparação com pessoas com deficiências visíveis. A participação total na tela das pessoas com deficiência é de 8,8%, enquanto as pessoas com deficiências aparentes representam apenas 0,4%.
Embora o tempo de tela seja baixo em todas as plataformas, a TV a cabo se destaca por apresentar a maior representação total de pessoas com deficiência na tela, com 9,5%. E essa representação na tela está influenciando a percepção que o público com deficiência tem da TV a cabo —as pessoas com deficiência têm 23% mais chancesde afirmar que a TV a cabo é a plataforma mais relevante para elas, em comparação com apopulação emgeral².
A representação de pessoas que vivem com deficiências visíveis é muito menor, caindo para menos de 1% em todas as plataformas. Essa lacuna na representação oferece oportunidades para que criadores de conteúdo e plataformas promovam talentos e deem destaque às histórias de pessoas com deficiências visíveis.
“A inclusão de talentos com deficiência não acontece por acaso. É fundamental ter representatividade nos bastidores para garantir uma representação melhor e mais autêntica na tela”, afirmou Lauren Appelbaum, vice-presidente sênior de Comunicação e Mídia de Entretenimento e Notíciasda RespectAbility. “Precisamos de pessoas com deficiência em posições que lhes permitam influenciar os enredos e as narrativas, ajudar na tomada de decisões sobre o elenco e os talentos, e representar a comunidade de pessoas com deficiência ao longo de todo o processo criativo.”
Uma série que destaca pessoas com deficiências visíveis é *Dead to Me*— uma comédia sombria sobre a amizade entre uma viúva recente e uma pessoa de espírito livre que guarda um segredo. A atriz Christina Applegate, que foi diagnosticada com esclerose múltipla em 2021, interpreta uma das duas personagens principais, Jen. Como uma das pouquíssimas protagonistas com uma deficiência visível, Applegate está ciente de como sua deficiência pode ser percebida pelos espectadores.
Em uma entrevista aoThe New York Times, ela explicou: “Esta é a primeira vez que alguém vai me ver do jeito que eu sou. Engordei 40 libras; não consigo andar sem uma bengala… Tenho certeza de que as pessoas vão pensar: ‘Não consigo superar isso’. Tudo bem, então não superem. Mas espero que as pessoas consigam superar isso, simplesmente aproveitem a jornada e se despedam dessas duas garotas.”
Com a estreia da 3ª temporada em 4º lugar na lista dos 10 mais assistidos da Netflix e com mais de 290 milhões de horas assistidas da série até o momento, a popularidade de “Dead to Me” demonstra que o público não está se esquivando de assistir a conteúdos com atores com deficiência; pelo contrário, está abraçando isso.
Mas a simples inclusão de talentos com deficiência não é suficiente. As pessoas com deficiência querem ver as realidades autênticas da vida cotidiana retratadas no conteúdo que assistem, e a representação atual está muito aquém das expectativas. De acordo com nosso estudo “Atitudes sobre a Representação na TV”, de abril de 2022, as pessoas com deficiência têm 52% mais chances do que a população em geral de afirmar que a representação de seu grupo de identidade é imprecisa.
Para ressaltar a importância da inclusão e da representação autêntica, considere a opinião da comunidade de pessoas com deficiência sobre os anúncios exibidos durante programas inclusivos e aqueles que apresentam pessoas com deficiência: essa comunidade tem 17% mais chances de se envolver com a marca quando o anúncio é veiculado em conteúdo inclusivo e apresenta pessoas dacomunidade de pessoas com deficiência².
E essa vantagem para as marcas pode significar um aumento na receita para os provedores de conteúdo e plataformas inclusivas. As marcas gastaram US$ 738 milhões em publicidade em programas de TV aberta e a cabo inclusivos para pessoas com deficiência — 7,5% do total de US$ 9,9 bilhões em gastos com publicidade na TV aberta e a cabo durante o mesmoperíodo⁴.
A indústria da mídia e do entretenimento tem liderado a luta pela diversidade em todas as suas formas e detém o poder de conscientizar o público e promover a representatividade das pessoas com deficiência. Aprovar mais projetos, incluir mais talentos com deficiência tanto na tela quanto nos bastidores e incentivar o autoID , para que os estúdios possam encontrar talentos capazes de garantir representações autênticas, são algumas das medidas que os estúdios e os criadores de conteúdo podem adotar. Em um mundo onde a luta contra as desigualdades e os estereótipos persiste, a mídia tem a responsabilidade de tornar a inclusão das pessoas com deficiência uma realidade.
* Este artigo foi publicado originalmente no site www.nielsen.com.
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